Câncer do Esôfago, Refluxo e Obesidade
Dr. Sérgio G. S. de Barros,
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Conferência apresentada no II International Workshop on Cancer of the Esophagus no Hospital de Clínicas de Porto Alegre Porto Alegre, março de 2008
A incidência mundial do câncer deve aumentar, progressivamente, nas próximas décadas e a maior parte desses casos atingirão os países em desenvolvimento, como o Brasil. O câncer do esôfago é um dos dez tipos mais freqüentes de câncer no mundo e o Rio Grande do Sul tem a maior incidência de todo o Brasil. Esse tumor tem altíssima mortalidade, pois quando os seus sintomas aparecem (a comida ou líquidos “trancam” após serem engolidos) esse câncer já está, em geral, em fase avançada.
A cura é rara e a sua prevenção, evitando-se os chamados fatores de risco, como o fumo e outros, deve ser buscada, vigorosamente, mas ainda estamos muito longe de ações efetivas para obter sucesso, inclusive, pela omissão dos governos no Brasil. O grande desafio para buscar a sua cura reside, ainda, em alertar indivíduos sob risco, sem sintomas, para a busca de diagnóstico e tratamento precoces.
Quem está sob risco?
O câncer do esôfago pode ser de dois tipos, o epidermóide e o adenocarcinoma segundo a sua aparência ao exame em laboratório. Esses dois tipos de tumor são causados por diferentes fatores de risco.
O epidermóide é associado ao fumo, às bebidas alcoólicas, ao consumo freqüente de bebidas quentes como o chimarrão e a alimentação pobre em frutas e verduras frescas. Representa 75% de todos os casos no Rio Grande do Sul, mas alcança até a 90% em outras partes do mundo.
O tipo adenocarcinoma do esôfago e da junção esôfago-gástrica é associado com sintomas de refluxo gastresofágico como a azia freqüente, como a obesidade e o fumo. Até a década de 1960 esse tipo de câncer era pouco freqüente no mundo, alcançando não mais do que 5% de todos os casos. Entretanto, a sua incidência tem aumentado e, atualmente, é responsável por mais de 50% dos casos nos Estados Unidos, na Europa Ocidental e na Austrália. Estudos populacionais sobre a freqüência dos tipos de câncer do esôfago são raros no Brasil, mas, recentemente, estudos no Hospital de Clínicas de Porto Alegre indicam que o Adenocarcinoma, apresenta um crescimento de 20% nos últimos 20 anos.
Porque estaria aumentando a frequencia do câncer do tipo Adenocarcinoma ?
Azia indica uma irritação no esôfago por refluxo gastresofágico
e quando freqüente (azia mais de duas vezes por semana, por várias
semanas) definidamente, aumenta o risco para o adenocarcinoma, como
demonstrado por vários estudos internacionais. Quando a azia é noturna
e freqüente, acordando a pessoa com refluxo, o risco para câncer é
ainda maior, sendo 43 vezes maior quando comparado com pessoas sem o
sintoma!
A
obesidade, principalmente, a obesidade abdominal, tanto quanto a azia
são fortemente associadas as adenocarcinoma do esôfago. Quanto maior o
peso corporal, maior risco para refluxo e maior risco para o câncer do
esôfago. Quando a azia e obesidade estão combinadas, potencializam
ainda mais o risco para o câncer do esôfago do tipo adenocarcinoma.
Portanto,
há fortes evidências que azia frequente e obesidade estejam
impulsionando o aumento da incidência do câncer do esôfago do tipo
adenocarcinoma.
Há uma epidemia de Refluxo e de Obesidade que explique esse aumento do câncer do esôfago?
A freqüência de refluxo estimada pela presença de azia é conhecida,
internacionalmente, variando entre 5 e 20% no mundo ocidental e é menor
do que 5% no mundo oriental. No Brasil a freqüência nacional foi
estimada em 12 % em inquérito nacional em 22 capitais brasileiras, mas
no Rio Grande do Sul, três estudos recentes indicaram uma freqüência entre 18% e 31%, nitidamente superior ao relatado no país.
Recentemente, uma revisão sistemática de vários
estudos, comprovou significativo aumento na freqüência
de azia na população da América do Norte e na Europa mas não nas
populações asiáticas. No Brasil, estudos longitudinais, com base
populacional, que permitam aferir um real aumento na incidência do refluxo
são inexistentes.
Quanto à presença de um surto epidêmico de refluxo,
dados internacionais disponíveis indicam uma freqüência alta de azia,
mas sem características de surto epidêmico. Entretanto os dados para a
obesidade tem sido reconhecidos como epidêmicos nos EUA e na Europa,
com um rápido aumento na sua freqüência que passou de 15% para 33% na população geral, no
período entre 1970 a 2000. Vários estudos no Brasil indicam, também ,um
aumento acelerado nas taxas de obesidade na população geral.
Os dados populacionais e fisiopatológicos descritos
acima indicando uma forte associação entre refluxo, obesidade e
adenocarcinoma do esôfago e paralelamente um aumento na frequencia do refluxo e da
obesidade e na incidência do Adenocarcinoma do esôfago talvez não
sejam mera coincidência. Autores importantes na área, como Lagergren,
entretanto, relutam em aceitar essa ligação e argumentam que a
comprovada epidemia de obesidade e o aumento na freqüência do refluxo
acometem igualmente ambos os sexos, enquanto que o adenocarcinoma
acomete, desproporcionalmente, o sexo masculino (7 homens para cada
mulheres). Provavelmente, outros fatores de risco sejam mais incidentes
no sexo masculino ou talvez exista um fator protetor a esse câncer no
sexo feminino. Quem sabe?
Quem está sob risco e deve ser considerado para diagnóstico precoce?
Indivíduos residentes no Rio Grande do Sul, área com maior incidência para Câncer do Esôfago no Brasil e que se enquadrem nos fatores baixo relacionados devem ser avaliados para diagnóstico precoce através de uma endoscopia do esôfago:
Maior risco para câncer epidermóide
- Homens
- 50 anos
- Fumantes
- Consumo freqüente de bebidas alcoólicas
- Consumo freqüente de chimarrão
- Baixo consumo de frutas e verduras frescas.
Maior risco para câncer adenocarcinoma
- Homens
- 50 anos
- Azia freqüente
- Sobrepeso ou obesidade, principalmente, a obesidade abdominal
- Fumo
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